16 de out de 2011

A concha, o medo e o amor


E lá ia ela caminhar pela praia, mal desembarcavam e já estava pedindo à mãe pra poder ir. Pedia e insistia tanto que a mãe praticamente a expulsava.

_Tá, vai logo menina, some da minha frente!

Ela ia feliz! Andar, sentir a brisa com o cheiro do mar, sentar ali na pedra e ficar olhando e escutando o barulho das ondas era seu prêmio preferido. Do alto de seus 13 anos sentia que aquilo seria sua recompensa pelos grandes esforços e realizações pro resto da vida...


Aquele dia, porém estava diferente, não sabia identificar como...


Foi andando ali para seu lugar favorito, distraidamente olhando para a areia, levantando montinhos com o peito do pé quando viu uma concha, grande, diferente de todas as quais estava acostumada a encontrar por ali.

A curiosidade imensa por tudo no mundo, a fez pegar a concha imediatamente, foi limpando a areia, observando cada detalhe, as ondulações, as cores, era fantástica, nunca tinha visto nada igual!

_ Quais são seus desejos jovem ama?

A voz veio do além e quase a matou de susto. Ela tinha plena certeza de que estava só na praia, virou-se tão devagar que quase parecia não fazer nenhum movimento, morrendo de medo, mas como sempre a curiosidade o vencia, ela tinha que ver quem era esse cara com uma voz que parecia a de um deus que aparecera do nada ali.

O gênio a olhou com ternura e repetiu a pergunta:

_ Quais são seus desejos jovem ama?

_Quem é você? De onde veio e como apareceu aqui? Porque me chama de ama?

As palavras saíram de sua boca de supetão, atropeladas, quase cuspidas para disfarçar o medo que sentia, era muito confuso olhar para aquele gigante loiro, de pele morena vestido com uma fralda e sem sapatos que estava diante dela olhando a de uma forma estranha...

Ela viu a ternura no olhar do gênio quando ele começou a responder, parecia que estava se divertindo com aquilo!

_A chamo ama porque me libertou e agora sou seu escravo até que escolha seus 3 desejos, os realizarei e seguirei livre para minha terra, venho da imaginação coletiva, fui criado por todos os seres que um dia desejaram minha existência inclusive a Sra., Jovem ama.

_Ah vá! Para com isso ou, não sou senhora e você tá de brincadeira né? É pegadinha da TV?

_Senhora, Não entendo muito bem sua linguagem, estou a muitos anos aprisionado nesta concha que segura. Quais são seus desejos?

A menina estava atônita encarando aquele ser, será mesmo que aquilo está acontecendo DE VERDADE? Ela teria então a possibilidade de escolher e ter 3 desejos realizados? Porque este gênio estava pressionando então, como escolher isso assim, ali na praia?

_Cê tá falando sério moço? Eu tenho que escolher agora?

_Sim jovem ama.

Ai, ai, ai, a cabeça dela fervia, pensava tão rápido como nunca havia pensado em toda a sua vida, que na verdade nem era tanta assim, a final ela tinha só 13 anos, ainda uma criança que gostava de correr e brincar, não tinha grandes desejos...

_Quero ser FELIZ, não quero sentir mais MEDO e quero conhecer o amor!

A frase saiu com o ímpeto e a certeza de Matusalém, ela percebeu a cara intrigada de surpresa do gênio, como será que ele fará isso, garantir-lhe a felicidade pelo resto de sua existência não era tarefa fácil.

_Não posso dar-lhe a felicidade, ser feliz é muito mais do que um bem que se adquire, a princípio, é só um monte de reações químicas, mas sobre isso você aprenderá na escola. Estas reações são disparadas por momentos, os quais sendo vividos livres de pré conceitos e julgamentos, assim contribuindo para o prolongamento desta sensação tão boa!

_Posso, porém  lhe oferecer o discernimento e a inteligência que a manterão atenta e aberta e assim cada vez que uma situação de felicidade se apresentar você poderá vivê-la com maior clareza, seguirá sua vida colecionando estes momentos.

_O medo, pequena ama, infelizmente este é um sentimento necessário para a sua sobrevivência e por isso não posso tirá-lo de ti. Posso, porém oferecer-lhe a coragem para lidar com seu medo e tirar deste o ímpeto que muitas vezes precisará nas situações mais difíceis da vida.

_O amor se apresenta a você quase todos os dias de sua vida, de diversas formas e sensações. É difícil descrevê-lo pois é dos sentimentos o mais subjetivo, mas posso garantir que o amor romântico, este vendido pela literatura e cinema, este não existe, é uma invenção criada e enraizada na sociedade moderna, mas como já mencionei é dos sentimentos o mais subjetivos. Portanto, do mesmo modo que nos desejos anteriores, não posso dar-te.

_Oferecer-lhe-ei então como uma soma dos dons anteriores que te proporcionará uma visão mais clara e compreensiva de seus próprios sentimentos e as razões que os causam.                Assim com este conjunto de dons, você terá a chance de perceber coisas bem à frente de seus amigos e colegas, use seus dons quando achar necessário e nunca somente para seu próprio benefício e lembre-se sempre que apesar de todo o conhecimento a escolha é sempre sua.

A menina atônita demorou para digerir tudo aquilo, o olhar vago pouco percebeu que o gigante virara fumaça e entrara de volta na concha, seu olhar o seguiu vagarosamente e sem saber o porque ela foi até o mar e arremessou a concha com toda sua força.