1 de nov de 2013

A lenda do tiro do Diabo

Tem horas que uma pausa é necessária. Um tempo. Se recolher no seu lugar perfeito, só com seus pensamentos.
Quando saía da estrada principal e pegava a trilha de terra pelo meio da floresta sentia que sua alma começava a se acalmar. Era como se aquele quilômetro que ligava a estrada à casa fosse um portal que deixava toda a complicação da vida cotidiana na cidade pra trás.
Parando para abrir a porteira, olhou para o lago, a cachoeira lá no fundo, o platô de pedra na margem onde estava a cabana, toda rodeada de mata nativa e o riozinho que seguia floresta adentro.
Respirou fundo com os olhos fechados.

Ah! Que falta fazia isso na loucura que sua vida tinha se tornado.

Seguiu com o carro margeando o pequeno lago até a cabana. Uma casinha de madeira bem aconchegante, um cômodo espaçoso com janelas nas faces leste e norte, uma grande porta para a varanda onde ficava o fogão a lenha, na parede sul ficava a lareira, uma cama futon, varias almofadas sobre o tapete, uma estante cheia de livros, a banheira ofurô, uma pequena mesa, um aparelho de som, dentre outros utensílios compunham a decoração do lugar.
Abriu tudo, acendeu a lareira, jogou as malas num canto, ligou o som com o cd dos Eagles - Hell freezes over, puxou a poltrona pra varanda, acendeu um cigarro e se sentou pra ver o entardecer ao som de Wasted Time.
Apesar de ser plena primavera, estava frio e a brisa que soprava do lago cheia de humidade deixava a sensação de ainda mais frio.
A noite  estava nublada, era vespera de finados, sempre chovia em finados.
Lembrou-se de uma historia de família, aliás um mistério de família. Seu avô, mancava de uma perna, dizia-se aos murmúrios que quando ele era jovem, tinha levado um tiro de espingarda no tornozelo, um tiro disparado pelo Diabo.
Todo mundo morria de curiosidade sobre a história, as crianças principalmente, o negócio já era uma lenda.
Algumas vezes cheias de coragem e receio chegaram a perguntar mas o avô sempre desconversava. Tinha as tias que sabiam da historia mas ninguém nunca contou detalhes.
A noite caiu, fez um sanduiche e se aconchegou nas almofadas ao pé da lareira, no som: Take it easy.
Essa era uma epoca boa pra pensar. Lembrar dos antigos, se aconselhar com eles.
Resolveu perguntar ao avô sobre a misteriosa lenda, pediu em voz alta que de onde estivesse lhe contasse.
O chá de camomila secou na caneca e o sono e o cansaço a venceram. Se arrastou até a cama, enrolou-se no cobertor e dormiu. Um sono profundo, sereno, como há muito não tinha. Era bom estar ali...

O ano era 1917, o mundo estava em guerra, no Brasil o exército chamava voluntários e quando não alcançava um contingente satisfatório de soldados eram realizados sorteios. Os jovens sorteados eram obrigados a servir e a depender dos rumos que as coisas estavam tomando, havia chance de serem enviados para a guerra.
José morava no interior de Minas Gerais, não quis arriscar continuar vivendo na pequena cidade e ser sorteado, e antes que isso pudesse acontecer foi viver na fazenda.
A vida na fazenda é cheia de afazeres, todos divididos, cada um tinha sempre muito o que fazer. Levantava-se as quatro horas, quando o sabiá cantava já estavam tomando o café da manhã.
Qual não foi o espanto à mesa quando Dona Maria pegou o bule de leite e encheu sua xícara de sal?
Isso mesmo de SAL!!!
Mais espantados ainda ficaram ao descobir que não havia explicação pro leiter ter se transformado em sal nos 5 minutos entre a própria Dona Maria tirá-lo do fogão, encher o bule e levá-lo à mesa.
Mas todos tinhan muito a fazer, a vida seguiu, de qualquer maneira a novena estava marcada para a hora da Ave Maria quando todos se reuniriam de novo.
Atarefada com a casa e o almoço, Dona Maria atiçou o fogo e colocou o arroz pra refogar, deu uma olhada no feijão, jogou a água, tampou as panelas, deu ordem pras meninas passarem os bifes e vigiarem as panelas no fogão. Se virou e foi correndo pros quartos ver a quantas andava a arrumação.
Um grito apavorado veio da cozinha.
Todas correram assustadas.
As moças apavoradas chorando no canto oposto ao fogão, as tampas das pabelas caídas no chão, um cheiro acre levantava no vapor saido das panelas cheias de AREIA.
AREIA!!!
Peguen seus terços, ordenou Dona Maria, vamos todas para a sala jejuar e rezar.
Já era meio da tarde quando José foi ao poço pegar água para encher os reservatorios da casa. Posicionou o balde e empurrou a alavanca e o jorro de uma água barrenta de enxofre encheu o balde.
ENXOFRE!!!
O alvoroço era geral na casa grande.
De todos os lados da fazenda chegavam notícias de fatos muito estranhos acontecendo ao longo do dia.
O demônio rondava a casa.
Todos estavam concentrados nas orações, só muita fé em Deus expulsaria o demônio do lugar.
Um barulho veio do celeiro, cavalos assustados relinchavam.
José se levantou, pegou a espingarda e saiu.
_Se não sai daqui com reza, vai sair na bala!
A porta do celeiro estava entreaberta, ergueu a lamparina com uma das mãos, empunhou a espingarda com a outra, respirou fundo e entrou.
Não havia nada lá, colocou a lamparina sobre um caixote e olhou ao redor, a atmosfera estava pesada.
Seu dedo no gatilho, a respiração marcada, ia dando passos pequenos olhando atentamente todos os cantos do pequeno celeiro. Um cavalo relinchou, um ancinho caiu sobre um balde fazendo um barulhão, ele se virou no susto, gritou:
_ Me enfrenta ô coisa ruim, toma um  tiro e volta pros quintos do infernos!

Tropeçou, a espingarda voou de suas maos, girou no ar, caiu no chão.
Disparou e atingiu de raspão seu tornozelo, foi sorte não ter arrancado seu pé.
A ferida durou a cicatrizar deixando-o manco o resto da vida.
Nada mais de estranho aconteceu na fazenda depois disso.
A história virou lenda.

Amanheceu, o sol entrou pelas janelas despertando-a desse sonho revelador.
No som, que esquecera repetindo o cd durante toda a noite tocava Desperado, a ultima musica.
Deixou a música terminar enquanto passava o café, encheu uma caneca, acendeu um cigarro, sentou na poltorna na varanda pra ver o dia começar ouvindo o silêncio.

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