26 de out de 2015

Velhos Retalhos Cap.4 – Almas de Fogo




Cheguei em São Paulo em meados do sec. XX, lá pelos anos 60. Me instalei numa kitchenet na Praça da Consolação, bem em cima do cine Bijou.

Uma região onde artistas, músicos, escritores, notívagos de todos os tipos se encontravam, a noite fervilhava.

O clima na época girava entre a tensão da resistência que se concentrava contra a ditadura militar que governava o pais e a explosão de uma contra cultura tresloucada, a pauliceia desvairada que agrupava hippies e doidos, gente livre que produzia teatro, musica e permeava as noites embriagadas com elaborações políticas.

Eu, nada mais era do que uma hippie descolada que estava sempre por ali, fiz muitos amigos, e muitas vítimas, juntava em mim toda a cultura que acumulei ao longo dos anos, passeei pela história da humanidade, aprendi a controlar os poderes da mente, a sensibilidade vampiresca em sua quase totalidade. Me fazia intima com facilidade, foi um tempo de lutas e muita curtição.

A noite acorda os demônios, os antigos como eu que circulam pelas sombras, os adormecidos que soltam chamas dos olhares de seus humanos hospedeiros.

Foi assim quando vi Larz, no canto escuro próximo ao palco do Djalma’s aquela noite fria de garoa numa primavera paulistana. Alto, moreno, forte, gostoso, vestia uma calça boca de sino que marcava as coxas e os glúteos, músculos rijos.

Nossos olhares se cruzaram, nos encontramos no meio do salão, uma conversa breve, faíscas, eu sentia a pulsação dele pelo ar, estava nervoso, o cheiro de tesão subia de suas axilas, foi fácil levá-lo ao apartamento.

Roupas largadas pelo chão, mãos perdidas pelos corpos colados de suor, rolando na cama, se afundando entre gemidos e sussurros, os dentes entrando em seu pescoço, a carne tremula de todo seu corpo, o espasmo da morte que chegava, gritos de prazer e dor, a incompreensão que nublava seus olhos enquanto o jorro de sangue me inundava a garganta nos segundos antes do desmaio de êxtase.

Larz se adaptou logo, quase não sentiu a transformação, tornou-se um delicioso amante, e nos divertimos muito. É interessante observar quando almas vampíricas desabrocham e encontram sua natureza.

Somos um bando de súcubos e íncubos, rondando em busca de sexo, sangue e vida, atordoando espíritos medíocres, deixando-os extasiados, loucos e mortos, jogados como carcaças inúteis.

Somos canalhas sedutores, gostamos do bailado, da conquista, da diversão. Somos um bando que voa livre pela noite, que ama com voracidade e cria vínculos eternos mesmo que nunca mais nos encontremos.


Sombras negras que vagam sugando a vida dos incautos e trazendo a liberdade eterna para as almas de fogo.

18 de out de 2015

Velhos Retalhos - Cap. 3 - A Bruxa





Vampiros não nascem, somos criados, escolhidos por outro que nos enxerga dentro de humanos mortais. Temos uma certa predisposição, uma centelha escondida no olhar.

Escolhemos e somos escolhidos, transformados pelo compartilhamento de nosso sangue estabelecemos laços eternos.

Tornamo-nos vampiros matando o humano em nós, mas ao contrário do que falam por aí, preservamos a alma, a essência que passa a ser plena, como humanos, somos dominados por uma blindagem consciente que nos emperra o entendimento de instintos. De certa maneira o maior poder que um vampiro pode desenvolver é a percepção racional e controle de todos os sentidos.

A transformação começa com o enfrentamento da morte, hoje, quase dois milênios depois, ainda me lembro vividamente de tudo o que senti. A passagem pela sombra, o confronto com o medo, a cegueira escura da solidão, a fome, o frio, a confusão sensorial.

O início doloroso da vida longa e solitária, mas não eterna, de um vampiro. Podemos viver muito, mas morremos quando nos é arrancada a alma, seja por uma estacada no coração ou exposição ao sol forte, não existe vida onde não há alma.

Passei por tudo nos porões de uma Corbita, escondida entre ratos e sacos de arroz. Tinha um apetite voraz, era como um filhote faminto o tempo todo, lidar com os novos instintos e percepções foi minha primeira e difícil tarefa. Aprisionada num porão, atravessando o mediterrâneo, cercada por ratos e poucos marinheiros disponíveis para a alimentação.

Lidar com o aprimoramento dos sentidos, o olfato aguça, a sensibilidade na pele e a percepção do ambiente, a audição aumenta o domínio do espaço ao redor.
Rio alto quando me lembro da chegada em Roma, a sede do império que dominava o mundo conhecido, fervilhava, sofri como numa vertigem forte quando todos aqueles ruídos e odores me invadiram de súbito.

Foram quase cem anos ao lado de Mephisto, me criando uma vampira forte, aprendendo por entre os reinos da Europa ocidental, ele me ensinou a compreender com paciência, a observar e entender, a usar os instintos e ler as entrelinhas com a inteligência nata que foi o que o despertou a vontade de me criar. Me misturava com os mestres, sacerdotes e sábios de todas as regiões pelas quais passávamos, descobri os poderes da visão, das poções e a usar as forças da natureza, me tornei sacerdotisa da grande religião antiga, representante da grande mãe e guiada pela Lua, encontrei meu destino, me tornei bastante conhecida entre os povos que habitavam as regiões por onde Roma marchava.

À medida que meu poder crescia a relação com Mephisto enfraquecia até que em uma encruzilhada seguimos em direções diferentes. Nunca mais o encontrei mas sinto sua presença, sei que ainda vive em algum canto desse mundo.

Segui em direção à Bretanha, me encontrar com a senhora de Avalon. 
Cavalgava à noite, chegava sorrateira pela noite e geralmente tomava uma casa de algum solitário nos arredores dos vilarejos, alguém que não seria notado caso desaparecesse. Gostava de caçar em regiões de prostíbulos e tavernas, festas populares regadas à muita comida e vinho e dança eram bastante comuns naquela época, me vestia como as mulheres vulgares, me espalhava entre os comuns em busca de sexo e sangue, circulava provocativamente entre os homens embriagados, seduzia-os facilmente em troca de um copo de cerveja barata.

Me divirto caçando, escolher entre cheiros, suores, sabores, olhares, o filtro que seleciona entre simples presas de possíveis criaturas, a centelha de fogo brilhando atrás de um olhar.
Passei pela Gália até a Bretanha menor demorando pouco entre os vilarejos deixando para trás confusos relatos da passagem de uma grande e respeitada sacerdotisa e a invasão de um demônio sedutor, uma caçadora que deixava homens mortos ou loucos.


Um rastro de mistério, sedução, paixão e morte.



Continua em: Cap. 4 - Almas de fogo

11 de out de 2015

Velhos Retalhos - Cap. 2 - Mephisto





Isem  não é um livro de memórias, talvez um costurado de lembranças, um punhado de estórias, períodos marcantes de uma longa existência.

Toda vez que me pego tentando lembrar de como era antes me espanto, forço a memória mas nada vem, tudo se apagou perdido num passado remoto.

Sei um pouco de minha história, de onde tirei o nome que uso até hoje. Nascida na lua cheia, em noite de forte tempestade, abandonada, culpada de nascença por trazer o mau agouro, fui encontrada numa cesta de cobras e criada como escrava.

Lembro-me bem do dia em que vi o sol pela ultima vez, o dia que fugi buscando liberdade e me aprisionei na noite eterna.

Jovem, destemida, esperta, nunca tolerei os grilhões da vida escrava, tinha que fugir, correr atras do sonho de uma vida livre e cheia de aventuras em Roma. Sabia que com a confusão por conta da partida dos navios que levavam a terça parte da produção para a capital do Império teria a oportunidade de se misturar aos estivadores e se esquivar clandestina.

Deixaria Alexandria para sempre.

A tarde quente, o sol escaldante do norte da Africa, correndo por entre os becos buscando a vida me deparei com a morte ao cair da noite.

Quando ele me olhou naquela taverna do cais senti um arrepio gelado na base da nuca, sempre confiei em meus instintos, sabia que meu destino sofreria uma grande alteração. Não tive medo, encarei de volta, aquele olhar travado que transborda diálogos silenciosos.

Mephisto era seu nome, grego, cabelos escuros, forte, alto, pele tão clara que chegava a refletir um tom acinzentado brilhante quando iluminada pela lua. Me desnudava com o olhar e conversava sedutoramente ignorando meu disfarce.

Nos perdemos por uma viela, a noite estava clara, a lua cheia espalhava sua luz e uma brisa forte carregava o ar salgado do mar.

_ Posso te dar muito mais do que almeja, posso te dar um poder forte, que te possibilitará perpetuar-se por todos os mundos.

Ele sussurrou no meu ouvido enquanto soltava minha roupa, me despia, me provocava e seduzida num misto de embriagues, euforia, desejo e tesão, cedi, abracei seu corpo nu e sua proposta de vida eterna.

Senti seus dentes cravando em meu pescoço, o sangue jorrando, escorrendo por entre meus seios, ele sorvia calmamente, completamente entorpecida, a cabeça perdida entre a vida que se esvaía de mim e o gozo me preenchia.
Ele me bebia e me penetrava com força, eu gritava num misto de dor e prazer, meu corpo entorpecido tremia.

E assim eu morri.

Continua em:Cap. 3 - A Bruxa



4 de out de 2015

Velhos Retalhos - Cap. 1 - Muito prazer, Lilith.





A campainha toca, uma, duas, três vezes.

_ Eu falei pro senhor que ela viajou, diz o zelador para o sindico, eu a vi saindo com uma sacola tem uns dias.

_ É, parece que não tem ninguém aí mesmo. Mulher esquisita essa...

Caminharam pelo hall, entraram no elevador e sumiram.

Lá dentro, no escuro, sentada na cama em silêncio de frente pra janela ela olhava pra lua.

Escutou os ecos das vozes masculinas no hall se afastando até calarem, não estava a fim de contatos humanos por enquanto.

Sentia fome.

A fome era muito mais forte em dias de lua vermelha, não tinha esse nome por acaso...

O peso dos anos se avolumava em suas costas, se sentia velha, estava fraca, a fome aumentava, fome de vida.

Pensava com um certo desprezo nessa busca insana de alguns pela eternidade, mal sabem tolos que são, o quão triste e solitário é passar os séculos perdendo apegos, colecionando retalhos de vida.

Olhou a lua, acendeu um cigarro inchando os pulmões numa tragada longa, solta o ar devagar, fazendo argolas de fumaça e olhando elas se desfazerem no ar.

Suspira.

Levanta, faz um café, enche a caneca, metade café preto, quente, forte, metade whisky, pra esquentar o corpo e a alma.

Liga o computador, estala os dedos, olha pra tela branca esperando palavras que não vem.

Um gole, um trago, muitas lembranças. O desejo de narrá-las latejava de tempos em tempos, outro gole, outro trago, a lua estava completamente vermelha agora.

Completou a caneca com mais whisky que café dessa vez, queria logo que os efeitos do álcool e a cafeína batessem.

Queria coragem, coragem pra ir buscar a vida de que necessitava. Coragem pra caçar.

Precisava assoprar as cinzas, atiçar o fogo, ressurgir.

Tomou de um gole o resto da caneca, vestiu um jeans e uma camiseta e saiu.

A lua já voltou à sua brancura, restavam poucas horas, a noite quente prometia ruas cheias, a fome agora a dominava completamente, era um animal em busca de sangue.

Entrou num inferninho alternativo nos arredores da Augusta, pequeno, abafado, esfumaçado, algumas pessoas dançavam, outras se amontoavam no bar pra onde ela se dirigiu.

_ Um Blood Mary por favor? – Deu uma risadinha pra si, gostava de fazer piada com as situações.

No som Bauhaus cantava Bela Lugosi’s dead, interessante trilha ela pensou enquanto dava goladas de seu drink deixando que uma gota escorresse sensualmente pelo canto da boca. Notou o moço que a olhava a alguns passos de distancia, a língua buscando a gota perdida, olhares travados, bonito o moço, forte, passa a língua pelos dentes, sente os caninos, saliva, a luz estroboscópica, a musica alta, olhares travados

_ Oi gata, diz o moço

_ Muito prazer, Lilith – ela diz colando a boca em sua orelha, sentindo seu cheiro, sente a pulsação com os lábios em seu pescoço.

Carne tenra, o jorro de sangue quente vertendo vida garganta abaixo, ela sente a força voltar, se sacia e larga o rapaz encostado em um canto escuro. Limpa dos lábios restos de sangue com a barra da camiseta, termina o drink, larga o copo sobre o balcão, se esquiva por entre as pessoas e volta pra casa.

Adormeceu olhando a tela do computador que mostrava


Velhos Retalhos



Continua em: Cap. 2 - Mephisto