4 de out de 2015

Velhos Retalhos - Cap. 1 - Muito prazer, Lilith.





A campainha toca, uma, duas, três vezes.

_ Eu falei pro senhor que ela viajou, diz o zelador para o sindico, eu a vi saindo com uma sacola tem uns dias.

_ É, parece que não tem ninguém aí mesmo. Mulher esquisita essa...

Caminharam pelo hall, entraram no elevador e sumiram.

Lá dentro, no escuro, sentada na cama em silêncio de frente pra janela ela olhava pra lua.

Escutou os ecos das vozes masculinas no hall se afastando até calarem, não estava a fim de contatos humanos por enquanto.

Sentia fome.

A fome era muito mais forte em dias de lua vermelha, não tinha esse nome por acaso...

O peso dos anos se avolumava em suas costas, se sentia velha, estava fraca, a fome aumentava, fome de vida.

Pensava com um certo desprezo nessa busca insana de alguns pela eternidade, mal sabem tolos que são, o quão triste e solitário é passar os séculos perdendo apegos, colecionando retalhos de vida.

Olhou a lua, acendeu um cigarro inchando os pulmões numa tragada longa, solta o ar devagar, fazendo argolas de fumaça e olhando elas se desfazerem no ar.

Suspira.

Levanta, faz um café, enche a caneca, metade café preto, quente, forte, metade whisky, pra esquentar o corpo e a alma.

Liga o computador, estala os dedos, olha pra tela branca esperando palavras que não vem.

Um gole, um trago, muitas lembranças. O desejo de narrá-las latejava de tempos em tempos, outro gole, outro trago, a lua estava completamente vermelha agora.

Completou a caneca com mais whisky que café dessa vez, queria logo que os efeitos do álcool e a cafeína batessem.

Queria coragem, coragem pra ir buscar a vida de que necessitava. Coragem pra caçar.

Precisava assoprar as cinzas, atiçar o fogo, ressurgir.

Tomou de um gole o resto da caneca, vestiu um jeans e uma camiseta e saiu.

A lua já voltou à sua brancura, restavam poucas horas, a noite quente prometia ruas cheias, a fome agora a dominava completamente, era um animal em busca de sangue.

Entrou num inferninho alternativo nos arredores da Augusta, pequeno, abafado, esfumaçado, algumas pessoas dançavam, outras se amontoavam no bar pra onde ela se dirigiu.

_ Um Blood Mary por favor? – Deu uma risadinha pra si, gostava de fazer piada com as situações.

No som Bauhaus cantava Bela Lugosi’s dead, interessante trilha ela pensou enquanto dava goladas de seu drink deixando que uma gota escorresse sensualmente pelo canto da boca. Notou o moço que a olhava a alguns passos de distancia, a língua buscando a gota perdida, olhares travados, bonito o moço, forte, passa a língua pelos dentes, sente os caninos, saliva, a luz estroboscópica, a musica alta, olhares travados

_ Oi gata, diz o moço

_ Muito prazer, Lilith – ela diz colando a boca em sua orelha, sentindo seu cheiro, sente a pulsação com os lábios em seu pescoço.

Carne tenra, o jorro de sangue quente vertendo vida garganta abaixo, ela sente a força voltar, se sacia e larga o rapaz encostado em um canto escuro. Limpa dos lábios restos de sangue com a barra da camiseta, termina o drink, larga o copo sobre o balcão, se esquiva por entre as pessoas e volta pra casa.

Adormeceu olhando a tela do computador que mostrava


Velhos Retalhos



Continua em: Cap. 2 - Mephisto

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