11 de out de 2015

Velhos Retalhos - Cap. 2 - Mephisto





Isem  não é um livro de memórias, talvez um costurado de lembranças, um punhado de estórias, períodos marcantes de uma longa existência.

Toda vez que me pego tentando lembrar de como era antes me espanto, forço a memória mas nada vem, tudo se apagou perdido num passado remoto.

Sei um pouco de minha história, de onde tirei o nome que uso até hoje. Nascida na lua cheia, em noite de forte tempestade, abandonada, culpada de nascença por trazer o mau agouro, fui encontrada numa cesta de cobras e criada como escrava.

Lembro-me bem do dia em que vi o sol pela ultima vez, o dia que fugi buscando liberdade e me aprisionei na noite eterna.

Jovem, destemida, esperta, nunca tolerei os grilhões da vida escrava, tinha que fugir, correr atras do sonho de uma vida livre e cheia de aventuras em Roma. Sabia que com a confusão por conta da partida dos navios que levavam a terça parte da produção para a capital do Império teria a oportunidade de se misturar aos estivadores e se esquivar clandestina.

Deixaria Alexandria para sempre.

A tarde quente, o sol escaldante do norte da Africa, correndo por entre os becos buscando a vida me deparei com a morte ao cair da noite.

Quando ele me olhou naquela taverna do cais senti um arrepio gelado na base da nuca, sempre confiei em meus instintos, sabia que meu destino sofreria uma grande alteração. Não tive medo, encarei de volta, aquele olhar travado que transborda diálogos silenciosos.

Mephisto era seu nome, grego, cabelos escuros, forte, alto, pele tão clara que chegava a refletir um tom acinzentado brilhante quando iluminada pela lua. Me desnudava com o olhar e conversava sedutoramente ignorando meu disfarce.

Nos perdemos por uma viela, a noite estava clara, a lua cheia espalhava sua luz e uma brisa forte carregava o ar salgado do mar.

_ Posso te dar muito mais do que almeja, posso te dar um poder forte, que te possibilitará perpetuar-se por todos os mundos.

Ele sussurrou no meu ouvido enquanto soltava minha roupa, me despia, me provocava e seduzida num misto de embriagues, euforia, desejo e tesão, cedi, abracei seu corpo nu e sua proposta de vida eterna.

Senti seus dentes cravando em meu pescoço, o sangue jorrando, escorrendo por entre meus seios, ele sorvia calmamente, completamente entorpecida, a cabeça perdida entre a vida que se esvaía de mim e o gozo me preenchia.
Ele me bebia e me penetrava com força, eu gritava num misto de dor e prazer, meu corpo entorpecido tremia.

E assim eu morri.

Continua em:Cap. 3 - A Bruxa



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Palpitem, critiquem, julguem!