18 de out de 2015

Velhos Retalhos - Cap. 3 - A Bruxa





Vampiros não nascem, somos criados, escolhidos por outro que nos enxerga dentro de humanos mortais. Temos uma certa predisposição, uma centelha escondida no olhar.

Escolhemos e somos escolhidos, transformados pelo compartilhamento de nosso sangue estabelecemos laços eternos.

Tornamo-nos vampiros matando o humano em nós, mas ao contrário do que falam por aí, preservamos a alma, a essência que passa a ser plena, como humanos, somos dominados por uma blindagem consciente que nos emperra o entendimento de instintos. De certa maneira o maior poder que um vampiro pode desenvolver é a percepção racional e controle de todos os sentidos.

A transformação começa com o enfrentamento da morte, hoje, quase dois milênios depois, ainda me lembro vividamente de tudo o que senti. A passagem pela sombra, o confronto com o medo, a cegueira escura da solidão, a fome, o frio, a confusão sensorial.

O início doloroso da vida longa e solitária, mas não eterna, de um vampiro. Podemos viver muito, mas morremos quando nos é arrancada a alma, seja por uma estacada no coração ou exposição ao sol forte, não existe vida onde não há alma.

Passei por tudo nos porões de uma Corbita, escondida entre ratos e sacos de arroz. Tinha um apetite voraz, era como um filhote faminto o tempo todo, lidar com os novos instintos e percepções foi minha primeira e difícil tarefa. Aprisionada num porão, atravessando o mediterrâneo, cercada por ratos e poucos marinheiros disponíveis para a alimentação.

Lidar com o aprimoramento dos sentidos, o olfato aguça, a sensibilidade na pele e a percepção do ambiente, a audição aumenta o domínio do espaço ao redor.
Rio alto quando me lembro da chegada em Roma, a sede do império que dominava o mundo conhecido, fervilhava, sofri como numa vertigem forte quando todos aqueles ruídos e odores me invadiram de súbito.

Foram quase cem anos ao lado de Mephisto, me criando uma vampira forte, aprendendo por entre os reinos da Europa ocidental, ele me ensinou a compreender com paciência, a observar e entender, a usar os instintos e ler as entrelinhas com a inteligência nata que foi o que o despertou a vontade de me criar. Me misturava com os mestres, sacerdotes e sábios de todas as regiões pelas quais passávamos, descobri os poderes da visão, das poções e a usar as forças da natureza, me tornei sacerdotisa da grande religião antiga, representante da grande mãe e guiada pela Lua, encontrei meu destino, me tornei bastante conhecida entre os povos que habitavam as regiões por onde Roma marchava.

À medida que meu poder crescia a relação com Mephisto enfraquecia até que em uma encruzilhada seguimos em direções diferentes. Nunca mais o encontrei mas sinto sua presença, sei que ainda vive em algum canto desse mundo.

Segui em direção à Bretanha, me encontrar com a senhora de Avalon. 
Cavalgava à noite, chegava sorrateira pela noite e geralmente tomava uma casa de algum solitário nos arredores dos vilarejos, alguém que não seria notado caso desaparecesse. Gostava de caçar em regiões de prostíbulos e tavernas, festas populares regadas à muita comida e vinho e dança eram bastante comuns naquela época, me vestia como as mulheres vulgares, me espalhava entre os comuns em busca de sexo e sangue, circulava provocativamente entre os homens embriagados, seduzia-os facilmente em troca de um copo de cerveja barata.

Me divirto caçando, escolher entre cheiros, suores, sabores, olhares, o filtro que seleciona entre simples presas de possíveis criaturas, a centelha de fogo brilhando atrás de um olhar.
Passei pela Gália até a Bretanha menor demorando pouco entre os vilarejos deixando para trás confusos relatos da passagem de uma grande e respeitada sacerdotisa e a invasão de um demônio sedutor, uma caçadora que deixava homens mortos ou loucos.


Um rastro de mistério, sedução, paixão e morte.



Continua em: Cap. 4 - Almas de fogo

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