17 de dez de 2015

Transcende


Já faz um tempo, resolveu se dedicar ao ramo de atendimento e entretenimento, como ela gostava de se referir eufemisticamente ao seu trabalho. Por atendimentos, digo de todos os tipos, sexual, psicológico, por vezes pedagógicos, outras vezes, a maioria, só proporcionava momentos agradáveis aos que queriam se divertir e precisavam de compania.

E fazia isso com maestria, se pudesse traçar um paralelo, ela gostava de se pensar como uma gueixa moderna. Inclusive essa classe de mulheres e suas histórias atraíam muito sua admiração.

Lera livros, vira filmes, ficava fascinada com as vidas delas, presas entre o glamour e a escravidão. Todas as que conhecera eram mulheres fortes e todas tiveram vidas horríveis, principalmente depois da guerra quando a tradição se apagou. Algumas, poucas, se saíram vitoriosas e compraram a própria liberdade e a garantia de uma velhice tranqüila a custa de muito sofrimento.

Mulheres, tiradas de suas infâncias cedo, vendidas, escravas, obrigadas a uma rotina pesada que dividia a educação e treinamento nas finas artes da dança e música e o trabalho doméstico. Cresciam entre a humilhação constante e um bizarro jogo de poder, dinheiro e sexo.

Eram mulheres que, na sociedade fechada e machista do Japão pré – guerra tinham, não só permissão como o dever de beber, rir, e conversar com homens sobre todos os assuntos, entretê-los e fazê-los esquecer que eram executivos sérios e cheios de regras sociais a cumprir. Homens ricos, que compravam isso.

Bárbara tinha nome de cigana, sangue italiano, fé de bruxa, e era mineira, guerreira, filha de ogum com Iansã, como cantava Clara Nunes. Nasceu sob um signo de fogo, na adolescência largou a vidinha de interior e veio para São Paulo.

Foi vendedora, secretária, modelo, recepcionista, garçonete, cozinheira, fez de um tudo, estudou, leu, aprendeu, se envolveu, se prendeu, cansou disso tudo, decidiu que queria uma vida mais leve, prazerosa, com mais diversão e menos stress.

Uma amiga ligou, uma proposta de trabalho, grana boa

_ Mas qual é o trabalho?

_É só ir com os caras nesse jantar, tem que saber conversar e falar inglês, é você amiga!

_Mas...

_Não tem mas, pensa na grana, é um jantar de negócios, os caras nos pegam, a gente janta, fala uns lances inteligentões que eu sei que você manja, e pronto! Voltamos pra casa com a grana do mês! Esses gringos vão ficar até mês que vem, se curtirem a gente, tâmo feita amiga!

Ponderou mais um pouco, mas pensou na sua conta bancária negativa e aceitou. De lá pra cá, quase dez anos nessa lida, foram muitas aventuras, alguns mau bocados, umas roubadas homéricas, umas trepadas épicas, algumas paixões e poucos amores.

Se estabeleceu e estabeleceu certas regras: não viajava a trabalho, sexo só se ela estivesse a fim depois de conhecer o cliente e se desistisse só devolveria 70% do pagamento, sempre podia recusar um cliente sem precisar explicações, em caso de envolvimento emocional conversariam de forma clara pra que não houvesse danos.

Não é uma mulher de jogos, raríssimas vezes abriu exceções para essas regras, e poucas se deu muito mal por quebrá-las, meter os pés pelas mãos e confundir tudo, mas, quem nunca não é mesmo?

Este tinha sido um ano difícil, precisava de férias, descansar, recarregar, aproveitou a calmaria de início de dezembro e resolveu dar uma escapada.

Uma série de coincidências a levaram à um apartamentinho escondido no Leme, uma semana de paz e sossego nesse ano cheio de emoções, altos e baixos, curvas pra todos os lados, uma montanha russa que quase escapava da metáfora tão próxima era para descrever sua vida recente. O Rio foi palco de muitas lembranças agradáveis, pensou ela enquanto dava um gole de cerveja, sentada só num canto daquele quiosque vazio. O funk tocando de fundo, a brisa forte ventando, o bom e velho clima divertido dessa cidade. Essa malemolência goxxtosa, esse sotaque cantado na malandragem.

Chega uma mensagem, ela olha e sorri. Uma enchurrada de emoções a percorrem nessa fração de segundos. Um passado que, mesmo sendo muito presente em sua vida, estava no passado há alguns anos.

“Tá aqui vadia? Me fala onde que vou te ver agora.”

Ela ia mesmo falar com ele, inclusive na escolha do destino das férias tinha levado em consideração o fato de ele morar na cidade. Ele se antecipou, sempre ele, parecia que sentia seu cheiro. Chegava a ser curiosa a ligação deles, ela gostava de chamar de paixonite crônica , era irresistível, não importava o tempo e os caminhos da vida, eles sempre davam um jeito de se ver, mantinham contato mesmo distantes geograficamente, eram amigos, se ela acreditasse nessa bobagem romântica patriarcal poderia dizer que era o amor da sua vida, mas ela gostava de pensar num sentido mais transcendental, encontros legais que temos com outras almas com as quais temos muita afinidade, identificação e carinho e que podem se repetir muitas vezes se nos reconhecermos ao longo das existências.

Raul, um michê carioca todo trabalhado na safadeza, sensual, charmoso, gostoso e cheio de mistérios. Se conheceram em São Paulo, numa noite enlouquecida num dos inferninhos da Nestor Pestana, numa época de vacas muito magras, se apaixonaram louca e torridamente, se apoiaram, se ergueram, tempos difíceis e divertidos, seguiram seus rumos por diferentes estradas, sempre se vendo, sempre dando aquele jeitinho.

Ela estava parada em pé junto à janela, fumava contemplando a noite, olhou o relógio, suspirou – sempre atrasado – pensou em um meio sorriso.

Ele abriu a porta em silêncio, olhou o ambiente em busca dela “ela deve estar brava, demorei pra porra”, pensou, viu o vulto dela na janela olhando pra fora, o quarto fracamente iluminado por um pequeno abajur no canto, um blues tocando baixo na TV, a luz da cidade iluminava seus contornos, “gostosa igual”, era o pensamento quando ele tropeçou num sapato jogado no caminho, “droga, caralho, ela ouviu”, olhou do chão pra ela rápido, queria ver seu primeiro olhar, ela se virou, seu olhar era, era seu olhar, sorrindo ela veio em sua direção com um beijo, quente, suave, demorado, se envolveram num abraço, muita coisa pra falar, muita coisa pra sentir, muito tesão acumulado, andaram atracados os poucos passos até a cama, as roupas se espalhando, respiração arfante, seus corpos colados, transpirando, eles completamente entregues ao desejo, bocas, mãos, cheiros, lambidas, ah... ninguém era como ele nesse quesito, e a voz? Aquele sotaque que a fazia tremer, aquela rouquidão sexy, sussurrada, chegou bem perto da orelha, roçando a boca em sua nuca, a respiração forte, deu um cheiro no pé do ouvido que a arrepiou inteira

_ E aê sua goxxtosa, dixx pá mim, dixx pro seu goxtoso, tá cheia de saudade? Tá pronta cachorra?

_eu to sempre pronta pra você delícia – disse ela se virando por cima dele, aquele peitoral definido, abdômen saradinho, moreno de sol com a marca do sungão que o deixava ainda mais gostoso, como se isso fosse possível (!?)

_ Tô com muita saudade de você gato, não dá pra gente ficar assim tanto tempo sem se ver...

Ela deixou seu corpo cair sobre o dele, ele a envolvia com os braços fortes, o diálogo cada vez mais entrecortado por gemidos, o suor escorria entre seus corpos, tremendo, pulsando em gozo.

Ele a encaixou pelas costas, as mãos suaves a puxando, grudando firme ao seu corpo, forte, compassado, intenso, eles saiam de si, eram como dizia na música do Alceu, como dois animais, “Fudendo feito bixo” pra usar uma expressão dele.

Se esparramaram na cama exaustos.

_ Nossa! – Raul disse com as mãos sobre o rosto minado de suro – forte isso...

Ela respirou profundamente.

_ Sempre é... – e se esticou por cima dele para alcançar um cigarro na mesinha.

_ Tô numa ressaca, enfiei meu pé na jaca ontem, tava boladasso com umasx paradasx aí, inclusive nem posso ficarrr muito tempo – levantou, esvaziou meia garrafa de água e olhou o celular.
Ela observava ele divertidamente enquanto fumava, meio estabanado, enrolado, querendo falar mas ao mesmo tempo sem saber o que dizer.

_ Desculpa Bá – ele disse olhando com aquele jeito de criança que fez travessura – é que... cê sabe... tenho que ir, mas eu volto, essa semana consigo um dia com mais folga e comigo maisx inteiro que hoje tô esxtragadasso – bebeu o resto da água que tinha na garrrafa, apalpou os bolsos – Ó só, será que dava pra você me arrumar algum pro taxi? Acabei de ver que to sem nada aqui, vim na pressa, saca? – deu um sorrisinho maroto, e ela se lembrou de uma piadinha que ele fez num de seus primeiros encontros, onde indo embora pediu doisx reaisx pra inteirar o do cigarro, ela deu e ele: “nunca fiz um programa tão barato”. Riu na ocasião e agora.

_ Eu sei Raul, sou de boa, cê sabe... – ela disse passando os braços pelo seu pescoço – é sempre bom te ver, mesmo sendo rapidinho – o beijou, pegou uma grana na carteira, e o entregou – Ainda bem que eu tenho desconto de cliente vip agora que você tá caro.

Eles riram, outro beijo, ele se foi.

Ela aumentou o som, e foi dançando nua até a geladeira, pegou uma cerveja.
“como é bom isso! Essa sensação de ser um ser fluido, leve, divertido, gostoso...”
Ela pensou enquanto ria e rodopiava pela sala, cantava como se Aretha fosse e entre goles, reboladas e tragos, se olhou no espelho mandou um beijinho e uma piscada e continuou dançando.

6 de dez de 2015

Esperança



A gente achava que ela tinha morrido. Tínhamos perdido o contato já fazia um tempo. Pouco se falava dela e quando vinham notícias, não eram boas.
Seria uma grande perda, ela passava despercebida, mas permeava a vida de todos. O mundo sem ela seria triste e seco.
Acho que ela percebeu isso, percebeu que precisava aparecer.
Começou de mansinho, como uma coceirinha, uma pulga atrás da orelha.
Feito a levedura foi se fazendo crescer entre as pessoas.
Os jovens perceberam primeiro. Ouvidos novos e atentos, conectados, espalharam a notícia rápido.
Não, ela não morreu, ela estava com eles o tempo todo, agora todos vimos.
Abraçada em meio as crianças batucando no meio da rua. Gritam cada vez mais alto e nos chamam pro batuque.
A Esperança, ela não morreu, ela não  vai morrer tão cedo.