10 de fev de 2013

Fantasia

Uma sala vazia, cinzenta e fria.
A neve caía silenciosa e a luz do dia, que já passava de sua metade, entrava palida pela janela deixando tudo ainda mais distante.
Sentada em sua poltrona olhando o tempo passar, ela contemplava o balé dos flocos ao som uivante do vento.
O tempo que corria e faltava em sua juventude agora passava tranquilo e pacífico no isolamento da velhice.
Se levantou, acendeu a lareira e foi buscar a chaleira com a água para o chá, pendurando-a na acha sagrada, ainda gostava de manter as tradições antigas.
Sorvendo a bebida que aquece, conforta e traz consigo as lembranças de momentos perdidos num passado distante. Tão distante que já não pertenciam mais a esta vida.
As sombras na parede da sala mal iluminada pelas chamas e a parca luz que vinha das janelas brincavam como fantoches, personagens de histórias vividas e criadas, uma mistura gostosa entre a verdade e a imaginação...

Era um amanhecer bonito, o céu azul claro riscado por finas linhas brancas brilhavam iluminadas pelos primeiros raios de sol que vinha subindo lentamente no horizonte, como um manto bordado com fios de prata.
Em pé, no alto do penhasco ela observava este espetáculo pensativa. O vento fresco agitava os longos cabelo negros como uma flamula, o som do mar que batia violentamente nos rochedos lá em baixo somado ao farfalhar do vento em sua saia a trouxe de volta.
Era o dia do verão e logo mais os preparativos se iniciarão envolvendo todos da aldeia, deixando-os ocupados e felizes numa alegria que só terminará na proxima madrugada quando o fogo de Bel for apenas a brasa na fogueira que jamais se apaga.
Pela primeira vez em sua vida viverá a noiva do verão, foi escolhida para ser Mãe do povo por sua sagacidade, coragem e habilidade com as ervas, e agora as vésperas da cerimônia ela começava a duvidar se conseguirá corresponder às expectativas de seu povo.
A ansiedade a fazia tremer e apressava a respiração, o coração pulsava como um tambor de guerra. Seria só o medo de falhar ou já o efeito das ervas rituais brincando com seus sentimentos?
Durante todo o dia tomará o chá e respirará o fumo, preparando seu corpo para a posse da deusa. Controlar a mente e permanecer num estado de consciência entorpecida era parte da prova, o tempo passará rapido à medida que o efeito aumenta.
Caminhando, de volta à cabana onde as damas a aguardavam para o banho purificador ela vislumbrou a colina, lá no alto os monolitos brilhavam com o sol irradiando um brilho acobreado. À noite será o brilho prateado resplandecendo a lua que cobrirá seus corpos nus no grande bailado ao redor do fogo sagrado.
Os vapores subiam da lareira enquanto a água gelada corria pelo seu corpo, as mãos habilidosas das moças a lavavam e em seguida a cobriam com a tinta brilhante formando desenhos sagrados por todo seu corpo. O poder ja inundava seu ser pulsando em seu sexo, aumentando a sensibilidade da sua pele, expandindo a visão, o mundo se transformava ao seu redor, não havia tempo, não havia espaço, tudo se confunde em meio à consciência e a magia.
O Sol já ia descendo do ponto mais alto do céu, o pão saia dos fornos exalando o aroma por todo o território.
Juntos eles se fartavam no banquete dos deuses, pão, mel, frutas.
A bebida entorpece, a fumaça sagrada enebria, a procissão sobe a colina ao ritmo dos tambores e da cantoria.
Dançando ao redor da fogueira, vestidos com o brilho da Lua, primeiro as moças com seu bailado sedutor, depois os homens chegavam a roda e os casais eram formados.
Ao redor da grande fogueira eles dançavam e se escolhiam. O som ritimado dos tambores estimulava os movimentos sensuais da dança envolvente proporcionada pelo calor de Bel e Ceridwen.
O Fogo e a Lua que garantem a fertilidade da terra. Os frutos seriam garantidos!

Chegou a hora do casamento sagrado.

O escolhido achou o ramo dourado, a busca pelo carvalho sagrado escondido no bosque denso se acabara e ele voltava vitorioso. Caminhando em meio a multidão que se abria para a sua passagem ele a vislumbrou junto ao altar, bela e prateada, coberta pelo brilho do luar e do fogo, os seios firmes pintados de azul, as curvas suaves de seus quadris que dançavam no ritimo da batucada. Ele seguiu ao seu encontro.
Em meio a embriaguez ela o viu caminhando em sua direção, era o deus chegando, dourado, esguio, trazendo consigo o ramo sagrado nas mãos. O falo ereto, o dorso torneado, os musculos pulsando com o esforço da procura que durara todo o dia.
O ramo foi depositado no altar e eles se entrelaçaram na dança.
Os casais bailam ao redor da fogueira numa grande roda em volta do casal divino.
A lua cheia alta no céu cravejado de estrelas iluminava a noite que corria atemporal.
O delírio coletivo no ritmo louco dos tambores transformava tudo em magia.
Os corpos nus entrelaçados se deitaram sobre a relva e ela sentiu a força da natureza dentro dela, os movimentos vigorosos do consorte a possuindo, semeando a terra, garantindo a vida, a donzela e o consorte eram um só. Sem tempo, sem espaço, delirando no prazer dos deuses, repetindo os movimentos criados na origem do mundo, abençoados distribuindo a bênção da vida....

Um vento frio a despertou do devaneio e ela percebeu que a lareira ja quase se extinguia levantou-se devagar, o peso da velhice acentuado pelo tempo frio dificultava a mobilidade e a saudade do que se foi há muito a trazia de volta para a solidão.

2 comentários:

  1. Ei linda, adoro seus textos, mas estou muito corrida, então volto para ler com calma, ok?
    Beijos

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  2. Adorei! Me fez voltar em algo esquecido na alma dentro de mim

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